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Carta para quem me mudou

27 de dezembro de 2013

São Paulo, 27 de dezembro de 2013

Prezado,

Começo desta maneira pois não poderia ser sincero chamando você por qualquer outro modo. Não sei o que sinto, pois só sinto que tudo foi perdido. Existiu muito amor, e talvez ainda exista guardado em alguma caixa ou baú velho onde tentei esconder o seu rastro um tempo após a sua partida. O mundo me lembrava você e nós dois juntos em todo e qualquer lugar, então fui banalizando, me enfrentando, transformando as memórias mesmo quando isso me fazia sangrar por dentro.

Então passei a me cortar. Cortei os laços físicos com você, as fotografias que restaram no meu mural de boas lembranças, a marca dos seus lábios sobre o meu corpo e tudo aquilo que já me forcei a esquecer. Hoje um pedaço do passado jaz no fundo de uma lixeira que apenas espera a coragem de alguém vir buscá-la, e um outro pedaço ainda está encrustado nas paredes do meu quarto, da minha sala, da minha cozinha e da minha cabeça, esperando um produto poderoso o suficiente para retirá-lo de lá. E eu procuro e testo todos que me indicam, que me oferecem e que me vendem.

Pensei que havia me apaixonado por você por conta das nossas diferenças e o quanto eu admirava aquilo que você havia conseguido ser enquanto eu nunca tive coragem, mesmo que essa admiração beirasse a inveja.

Aos poucos fui deixando de ser eu para ser você. Fiz tudo aquilo que você costumava fazer, buscando te entender e perdoar, mas só me sentia mais perdido e mal consigo perdoar a mim hoje.

Sou tão outra pessoa pois procurei ser aquilo que amava, mas na verdade amei uma ilusão e seus defeitos e qualidades verdadeiros apenas se mostraram com o fim da paixão. Houve amor após a passagem da cegueira, mas foi tão maltrado, maltrapilho e mal-vestido por tanto tempo, que ele resolveu se calar e deixar todo o resto gritar.

As suas últimas palavras e acusações ecoam cada vez que busco perdoar. Não sou mais eu pois me abri para o rancor, a mágoa e a dor de ser só quando eu queria ser seu.

Nesses últimos dias do ano, só espero que eu consiga me reconstruir, me restaurar e voltar a ser algo inteiro, com ou sem você. Preferencialmente sem você, depois de tudo que ouvi. Ou que eu consiga dar o perdão e esquecer tudo que foi dito e feito.

Não sou vítima e nunca quis esse papel, por mais que a imagem em sua retina tentasse mostrar isso.

Perdoe-me e esqueça-me, será melhor para nós dois.

De quem já não sabe quem é ou o que sente,

Outro.

 

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