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“Morte e vida severina” de João Cabral de Melo Neto e “Vidas Secas – A Fuga” de Graciliano Ramos.

12 de dezembro de 2012

A princípio, podemos notar no poema de João Cabral de Melo Neto um contraste logo pelo título: a ideia de morte antecedendo a própria vida. Esta ideia, aliás, é o que circunda a história em sua primeira parte, onde o herói, Severino, encontra-se com a morte em diversas passagens, como aponta Marlyse Meyer em “Caminhos do Imaginário do Brasil”.

A propósito da ideia de vida, e do próprio “subtítulo” que o poema recebe, “Auto de Natal”, pode-se dizer que, juntamente a ideia de morte, a história narrada leva ao nascimento (vida) de mais um severino. Os traços de religiosidade, que o ligariam a um auto, estão presentes na forma que este nascimento se liga ao nascimento de Jesus Cristo, retratado na figura de presépios, como Marlyse Meyer também afirma em seu texto. Um ambiente paupérrimo, com personagens também muito pobres, que oferecem presentes muito simples, contrastando com a passagem dos Reis Magos na história bíblica e a profissão do carpinteiro, diretamente ligado a José, pai de Jesus Cristo.

O modo como o enredo se desenvolve, leva-nos a crer em uma organização “circular”, já que tudo parece uma repetição “monótona e implacável” de suas peripécias (Meyer, Marlyse), o que nos leva também a fazer uma ligação com a obra de Graciliano Ramos, “Vidas Secas”.

Na década de 70, com a análise de Antonio Cândido, a estrutura do romance “Vidas Secas” passou a ser vista de forma circular, sendo assim, não desmontável, o contrário do que Rubem Braga analisou anteriormente.

Esta estrutura circular, uma das ligações entre as duas obras, além do plano de fundo (a seca), leva a uma quebra da esperança em alguma mudança, visto que o esperado acaba se tornando a volta ao ponto de partida: no poema, ao nascimento de uma nova vida severina (palavra que significa severidade, assim como a própria vida de Severino), e no romance, a uma fuga (tanto da seca do próprio sertão, quanto da seca das próprias vidas das personagens, que no capítulo final, “A Fuga”, a esperança de mudança é depositada nos meninos, que poderiam ir à escola e se instruir).

Tanto no poema quanto no romance, também são as mulheres que incitam a esperança. No caso do poema, são as ciganas com suas previsões (principalmente a segunda), e no romance, Sinhá Vitória.

A primeira cigana prevê um futuro severino idêntico ao que já aconteceu aos outros personagens, enquanto a segunda fala sobre um destino fora do sertão, numa área mais urbana e desenvolvida, sendo a vida um direito garantido, e não mais a morte. Uma vida “vivida dia após dia e não morrida devagar”, como também descreve Marlyse em seu ensaio.

Um outro fator que aproxima os dois autores e as duas obras é a forma em que, objetivamente, são escritas. Essencialmente objetivas, de estilo enxuto, demonstrando a própria seca e a vida das personagens. O que não quer dizer que eles não consigam alcançar o psicológico de seus personagens.

A propósito, Vidas Secas o faz de forma notável, através do discurso indireto livre, dizendo o que seus personagens sentem e pensam e não conseguem transformar em palavras, principalmente Fabiano, devido ao seu embrutecimento.

Ambos escritores recusam aos clichês, apesar de serem grandes referências a “literatura da seca”, e não apresentam visão fatalista, apesar de suas estruturas (circulares) tenderem a essa primeira impressão. As duas obras finalizam, na verdade, com a esperança de que em um novo lugar, ou uma nova vida, a situação possa finalmente se estabilizar.

 

Raphael Granucci Pequeno

 

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