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23:59.

13 de maio de 2011

Baseado em dores reais.

Raphael caminha para a Praça do Relógio, local que Gustavo marcou para o primeiro encontro em dias. Enquanto anda apressado para não se atrasar, pensa em tudo que já aconteceu. O quão difícil foram os últimos dias em que não falava com Gustavo por causa de uma discussão, fato recorrente nas últimas semanas.

Mesmo achando que se atrasaria, ainda teve tempo para derramar algumas lágrimas antes que Gustavo aparecesse.

Quando notou sua imagem vindo em sua direção, pôde reparar: ambos estavam vestidos de preto. Raphael é daquelas pessoas que enxergam metáforas, e coisas da psicanálise em todo acontecimento e fala do dia-a-dia. Para ele, nada acontece por acaso.

Seriam suas vestes um presságio para o luto de uma morte que poderia vir a seguir? Não do amor, pois este perdura até mesmo quando a esperança vacila.

Uma saudação seca. Palavras cortantes. Assim como os ventos frios do inverno, que em meio às árvores do local, pareciam ainda piores. Assim como o que ambos sentiam, que parecia muito pior do que realmente era.

Os dois brincaram por meses de abrir e fechar feridas. Mas naquela semana foram longe demais. Ou não, foi apenas a gota que fez o balde transbordar.

Criticar os sonhos alheios não deveria ser comum, mas relacionamentos não terminam por isso.

As pessoas gostam de coisas que lhes dão uma boa sensação. Certa vez conheci uma mulher já idosa apaixonada por quadros. Na parede de seu apartamento não havia espaço para mais nenhum. Estavam cobertas por fotos e imagens de seus avós, pais, filhos, netos, bisnetos etc. À princípio, parecia exagero. Depois de um tempo comecei a perceber melhor aquela senhora. Ela queria as imagens que a lembravam de sua felicidade, já que agora era sozinha, vivia apenas na companhia de sua empregada. Muitas vezes os quadros já não lhe traziam lembranças, porque sua cabeça não era capaz de recordá-las, mas ela tinha a certeza que fora feliz naquele momento retratado em sua parede.

As pessoas precisam se sentir notadas, queridas, amadas e compreendidas.

Gustavo amava viajar pela sensação do novo, aquilo que lhe trazia vida. Raphael adorava expor seus sentimentos por meio de alguma arte, e gostava de entrar em contato com o artista que a fazia. Isso não foi o motivo que os separou. Isso foi a gota d’água.

Enfim, eles estavam frente a frente, tentando proteger seus sentimentos um do outro e deles mesmos.

Raphael, depois de tantas vezes falar e acusar tentou ao máximo se abster de justificativas, pois elas o irritavam, e por isso não explicou a ausência da aliança em seu dedo. Ele a tirou em seu trabalho, guardou na carteira para não levantar dúvidas para o chefe, e acreditava que ali estaria segura. Mas não estava. Quando Gustavo reparou na ausência do objeto, acusou-o mais uma vez. Só que justificativas irritam ainda mais Raphael quando ele está nervoso. Por isso, mais uma vez, tentou não usá-las.

Deixou Gustavo expor tudo que sentia, mesmo que isso o fizesse sangrar por dentro. Muitas vezes Raphael esboçava um sorriso: um misto de nervoso e vontade de que o outro também sorrisse, como muitas vezes já acontecera. Mas nada. A mágoa era grande demais para deixar os músculos relaxarem.

Os dois eram diferentes e encaravam seus problemas e diferenças também de forma diferente, mas o amor não foi forte o suficiente para relevá-las desta vez.

Quando as palavras, ameaças e insultos passaram a ser repetidas, a conversa acabou. Assim como o tempo deles.

Irônico é pensar como a relação foi passada para o nível de “tempo indefinido” bem abaixo do relógio, da Praça do Relógio.

Um ano e nove meses, para um “tempo indefinido”.

Raphael foi embora, sem olhar para trás apenas para que Gustavo não visse as lágrimas rolando pelo seu rosto. Jurou que não teria uma recaída. Seria forte pela primeira vez em muito tempo, pois ultimamente se sentia um fracassado.

Mas agora Raphael se senta para escrever tudo que passou em sua cabeça, coração e alma, na esperança que isso seja lido por Gustavo. E mesmo que essa esperança acabe, fraqueje, vacile, o amor ainda estará lá, triste e tímido, até que um dia ele possa descansar em paz.

Autor: Raphael Granucci Pequeno

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