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recado-alucinação

30 de abril de 2017

para Belchior

 

Caro amigo,

a carta que chegou hoje

não trouxe poesia viva

como aquelas que você endereçava

aos meus pais e avós

e que de tanto reler

tomei como se fossem para mim

 

a carta que chegou hoje

não era sua

apesar de trazer notícias de você

 

e quero dizer:

para um rapaz vindo do interior

sem qualquer parentesco importante

as notícias fizeram muito barulho

 

e preciso acrescentar

sequer estou magoado

pela falta de resposta

das minhas próprias cartas

entendo que precisou desbravar a América Latina

e a América Latina precisava de suas aventuras

suas ameaças irônicas

e seu coração selvagem

 

no vazio da sua presença

quero falar que suas velhas roupas coloridas

– como aquele blue jeans,

ainda me servem

e faz sucesso entre os meus amigos mais descolados

 

e engraçado falar disso

porque quem se destaca mesmo hoje em dia

são aqueles que admiram o futuro do passado

porque o vermelho saiu das lojas

– mas essas novas cores não me servem,

 

e estou me perdendo nas ideais, amigo,

por tanto falar do presente

esqueço o motivo desta carta

que deverá se perder assim como as outras já escritas

e que não sabia pra onde endereçar

desejando que mesmo assim

pudesse lê-las

 

e se chegar a ler essas palavras

não se comova

com a triste realidade que inventei

porque ao vivo

continua sendo pior

 

mas não atrasarei seu show

porque já é noite

e o cantor não pode faltar

 

continuarei sentindo sua falta
e manda um beijo pra Elis

 

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13 de fevereiro de 2017

“hello darkness, my old friend

I’ve come to talk with you again”

– Simon & Garfunkel

coração acelerado

sensação de sufocamento

 

me falta o ar

o peito pesa

existe um vazio

um conhecido vazio

só que desta vez mais intenso

 

não deveria ter resistido tanto

ou deveria ter resistido mais

 

quero a pílula

 

desisto e a engulo

tomo uma, duas, três

então paro

 

não quero morrer

quero que isso acabe

quero viver

 

– respire fundo

e preste atenção –

 

se cozinho, me acalmo

misturando ingredientes

lavando panelas

 

preciso cuidar do que está fora da minha cabeça

preciso me manter no aqui-agora

 

então como

e a comida pesa

igual a culpa

de cada tropeço

fracasso

e até mesmo as vitórias

que são o escárnio nessa montanha russa

onde nenhuma subida é maior

do que as descidas

 

o vazio continua

 

compro o que não preciso

escolho uma trilha sonora para sofrer

e sinto o enjoo

quero vomitar essa dor

que sequer é física

 

– preste atenção

no ar que entra e sai

onde dói

porque dói –

 

quero quebrar tudo

mas também não consigo sair da cama

 

quero estar sozinho para não precisar

fingir

mas quero ajuda

e ninguém me estende ao menos uma

mão

 

ninguém me olha

porque

eu não me encaixo na felicidade

nem na alegria

 

quando chego assim tão baixo

eu esqueço do que já me fez bem

e me sinto ingrato

mesmo que seja involuntário

ver o lado mais escuro

da vida

 

entendo que tudo pode ser meu

de novo

posso ser eu

mas não acho o caminho

 

a cabeça dói

 

todos me abandonaram

as vozes repetem

como um mantra

 

sou um barco à deriva

um avião que segue angularmente rumo ao chão

 

anseio o movimento final

o choque

pois com ele

virá o fim

será o meu fim

 

quero o despertar dessa dor

que só me faz querer dormir

mas noite após noite

me rouba o sono

e conto o barulho dos ônibus

e carros

que passam na avenida

me obrigando a enfrentar

a realidade

 

há vida fora do meu quarto

só não a sinto dentro do meu peito

 

Raphael Granucci Pequeno

 

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Ensaio sobre o mergulho

10 de fevereiro de 2017

“Às vezes, as pessoas deixam passar suas outras metades por não conseguirem viver repletas. Por uma estranha necessidade de estar só.”
(Fernanda Young)

olho para a tranquilidade destas águas
e quero apenas boiar
entrar lentamente
até onde tenho controle
e alcanço o fundo sem precisar
sequer afundar a cabeça

um dia eu mergulhei
e me senti feliz
na lagoa
onde pensei ter aprendido a nadar

acostumado a temperatura da água
no entanto
não estava preparado para os perigos
que aquelas águas tranquilas guardavam

monstros horrendos
armadilhas que me prendiam
e eu tinha medo
de nunca mais voltar a superfície
ao mesmo tempo que temia
voltar a não fazer parte da água

todos esses traumas
me impedem de mergulhar
perder o controle
explorar
porque sinto que já sei
o que vou encontrar

então eu entro com cautela
sem molhar os cabelos
preparado para sair
assim que a primeira movimentação
perigosa
me puxar para baixo

porque eu quero a terra e o ar
assim como sou atraído para a água

meu corpo
65% de água
quer apenas pertencer
se desmanchar

mas o medo
faz com que eu fique seco
às margens

 

Raphael Granucci Pequeno

 

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Pronto para amar

1 de fevereiro de 2017

“O homem que diz sou
Não é!
Porque quem é mesmo é
Não sou!”

quem se diz
pronto para amar,
não está

o amor é o inesperado
imprevisível
amar é impermanência
é estar sem saber se ficará

a graça do amor
muita vezes
é essa
sentir-se seguro
em uma corda bamba
caminhar por uma linha
e mesmo com o temor
– e o tremor –
continuar a andar
– ser o amor

e ele nem sempre vem
mesmo quando confirma o convite
e às vezes se atrasa

não o espere desde às três
porque ele não vem às quatro
ele vem quando quer
– se quiser

estar “pronto para o amor”
é assumir prepotência
como se o amor
já estivesse pronto
e só bastasse
abrir as portas
janelas
passar o café
e esperar por ele

estar disposto a amar
entretanto
é mais livre
mais certo em toda a sua incerteza

é estar disposto a olhar o céu
mas saber da necessidade de prestar atenção
aos seus próprios passos

porque para o amor não tem fórmula pronta
então para amar é necessário estar de mãos abertas

 

Raphael Granucci Pequeno

 

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O que ficou

26 de janeiro de 2017

nos últimos dias
a nostalgia me visitou
abriu as malas
e prometeu ficar

me fez lembrar do seu corpo
a mágica de quando nossas peles se tocavam
nossos beijos que iam muito além dos lábios

nós nos amávamos
mas perdi aquilo que alguns nunca encontraram

e o que ficou?

a cada nova tentativa de me esvaziar de tudo
para começar de novo
ainda me sobra você
transbordando em ausência
por cada entrada e saída do meu corpo

e mesmo levando sua imagem comigo
sua falta em minha vida
é como um espinho
um luto que se renova
a recordação de um fracasso

ne me quitte pas é pouco
porque você já se foi
já me abandonou

faço promessas
planos
planto esperanças no jardim da loucura

mas o clima árido que aqui se instaurou
não permite que nada cresça
nada permaneça

só existe eu,
sua lembrança e a loucura
que me faz pensar – delirar
o que eu não trocaria
pelo simples prazer
necessidade
de ter você comigo

o mundo, que é tudo que eu tenho,
é também tudo que eu daria
para você estar ao meu lado

– mas quando toca uma música mais alegre no rádio
ou vejo um céu mais azul pela janela
acredito que a nostalgia vai passar
e ficarei em paz
pleno
aberto
até sua próxima visita

 

Raphael Granucci Pequeno

 

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Trajeto

23 de janeiro de 2017

chega mais perto
encosta a cabeça aqui no meu ombro
e pode dormir

a viagem não é tão longa
mas é tempo o suficiente para você fechar os seus olhos
descansar do que aconteceu antes
e se preparar para o que você ainda tem para viver

enquanto isso
a minha vida é mudada para sempre
com a saudade de tocar seus cabelos
sentir seu beijo
sentir o seu perfume nas minhas roupas
depois do adeus na última estação

então pode chegar
mais uma vez
ainda tem espaço ao meu lado
em qualquer metrô que eu estiver

– É triste perceber,
depois de todos esses anos,
você ainda é o predicado da minha Poesia

 

Raphael Granucci Pequeno

 

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Chove em São Paulo e em Roma

20 de janeiro de 2017

São Paulo, 20 de janeiro de 2017

chove há três dias em São Paulo
a cidade é saturada de si mesma
mas a água escorre
e leva lembranças
momentos
casas

ao desembarcar em Roma
chovia
e tive que arrastar minhas bagagens
ao redor de roma termini
até chegar no hotel

minha vida é em São Paulo
e sinto falta daqui
quanto não estou aqui

a minha primeira impressão de Roma
foi menos fantasiosa
que um sonho

São Paulo me inunda
com seus cheiros
trânsito
pessoas
me transborda
me rouba

em Roma eu fui outro
andando por ruas
que não conhecia
e sequer me lembro hoje
– fui
efêmero

em São Paulo
sou eterno
mesmo que mude

e subindo agora
esta avenida
com um guarda chuva em minhas mãos
me lembro de Roma
a chuva que escorre pelas pedras
levando histórias
lavando histórias
percorrendo ruínas do tempo e de mim
– sem molhar o Panteão

continuo sozinho neste caminho
subindo ou descendo
chegando ou saindo
e sempre em movimentos
gerúndios
buscando ser
infinitivamente infinito

Raphael Granucci Pequeno

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